domingo, 19 de abril de 2015

Você é o que adora

“Não a nós, ADONAI, não a nós, mas a teu nome seja a glória, por causa de tua graça e de tua verdade.”
“Por que as nações perguntam: ‘Onde está o Deus deles?’. Nosso Deus está no céu; faz o que lhe agrada.”
“Os ídolos deles são apenas prata e ouro, feito por mãos humanas. Têm boca, mas não podem falar; têm olhos, mas não podem ver; têm ouvidos, mas não podem ouvir; têm nariz, mas não podem cheirar; têm mãos, mas não podem sentir; têm pés, mas não podem andar; com sua garganta, não podem emitir som. Os povos que os fazem se tornarão como eles, juntamente com todos aqueles que neles confiam.”
“Yisra’el, confie em ADONAI! Ele é seu auxílio e escudo. Casa de Aharon, confie em ADONAI! Ele é seu auxílio e escudo. Vocês, que temem ADONAI, confiem em ADONAI. Ele é seu auxílio e escudo. ADONAI se lembra de nós e nos abençoará. Abençoará a casa de Yisra’el; abençoará a casa de Aharon; abençoará todos os que temem ADONAI, tanto grandes quanto pequenos.”
“Que ADONAI aumente o seu número, tanto de vocês quanto de seus filhos. Que vocês sejam abençoados por ADONAI, o criador do céu e da terra. O céu pertence a ADONAI, mas a terra ele deu à humanidade.”
“Os mortos não podem louvar ADONAI, nem aqueles que descem ao silêncio. Mas nós bendiremos ADONAI desde agora e para sempre. Halleluyah!”
(Tehillim [Salmos] 115 BJC [Bíblia Judaica Completa])

            O salmo acima pertence ao grupo de salmos conhecidos como Halel [louvores] Egípcio, Tehillim [Salmos] 113 a 118, devido à sua associação com o livramento de Yisra’el [Israel] da servidão egípcia. Estes Tehillim são entoados em Pessach [Páscoa], louvando ao Senhor pelo grande livramento. Os últimos quatro, Tehillim 115 a 118, são chamados de o Grande Halel e entoados no Seder de Pessach após a refeição, entoados inclusive por Yeshua [Jesus] no final do último Seder ministrado por ele (Mt 26.29 e 30).
            O texto inicia atribuindo glória a Deus, e não aos homens. Glória no hebraico é כבוד (kabhodh) que literalmente representa peso. Quando o texto fala da glória dada ao Senhor, ele fala do peso que atribuímos a Deus, ou seja, a importância que Ele recebe em nossas vidas. Assim, o autor do salmo já inicia sua mensagem dizendo que a maior importância deve ser dada ao Eterno e não a nós mesmos. Isto não é simplesmente o mandamento de um deus egocêntrico que ordena que o consideremos importante, mas o concelho de um homem que experimentou a intimidade deste Deus. E este homem justifica a razão deste conselho: a graça e a verdade de Deus.
A graça (hesedh) é a benevolência, benignidade, misericórdia, bondade, fidelidade, amor e beneficência de Deus colocados em ação. É mais do que somente o favor imerecido que muitas vezes utilizamos para explicar tal palavra. É o fundamento para os atos do Senhor e seu caráter. O Salmo 136 é um ótimo exemplo disto, onde vemos que é a graça do Senhor que fez com que Ele agisse. E Ele faz porque assim o deseja, e não porque é obrigado, como muitas vezes nós agimos. Muitas vezes o bem que fazemos é devido a uma promessa que fizemos e precisamos cumprir, ou porque sabemos que precisamos agir deste modo. Mas nosso Deus é diferente, Ele age deste modo porque Ele é deste modo. O salmista, tendo experimentado tal característica do Senhor, pode dizer com propriedade que o melhor é confiarmos, darmos importância para um Deus como este, e não confiarmos em nossas próprias mãos.
Repare que confiança é fé, ou seja, em nossa vida com Deus dar glória, dar peso, confiar e ter fé acabam se misturando. E assim o primeiro versículo deste salmo é um alerta contra a fé em um falso deus, um deus procurado pelos homens, um deus que é visível e faz a vontade do homem. É neste sentido que “as nações” do versículo 2 perguntam: “Onde está o Deus deles?”. As nações procuram um deus que está sempre disposto a agradar seus seguidores, um deus que é na verdade um escravo. A humanidade deseja ser tratada como deus, e procura alguém que a sirva, que atenda aos seus caprichos. Muitos de nós queremos impor nossos desejos, nossas necessidades, e para isto estamos dispostos inclusive a adulterar o texto bíblico de modo que este defenda o nosso ponto de vista. Criamos um deus que nos agrada e assim muitos acabam se transformando, mesmo sem ter consciência disto, em henoteístas, ou seja, pessoas que acreditam em vários deuses, mas um possui qualidade suprema, como os habitantes do reino de Yisra’el [Israel] na época do profeta Eliyahu [Elias] que acreditavam no Senhor mas também serviam a Ba’al [Baal] para receberem o que desejavam (1 Rs 18).
Mas mesmo reconhecendo que o Criador é um Deus verdadeiro, se esculpimos um deus que está de acordo com nossos interesses somos idolatras, pois, conforme o próprio texto bíblico ensina, “Nosso Deus está no céu; faz o que lhe agrada.” Ele não pode ser manipulado por nós. Não importa se eu me agrado ou não com os seu agir, Ele vai agir de acordo com Sua vontade. Não importa se eu concordo com ou não com a Bíblia, ela continua sendo a Palavra de Deus, e qualquer tentativa de muda-la só me transforma num “estuprador” que “violenta” textos bíblicos para que eles satisfaçam o meu desejo, independente do seu propósito original.
Repare na descrição do salmista dos ídolos: têm boca, olhos, ouvidos, nariz, mãos, pés, garganta. Eles são criados de modo a terem a aparência do homem racional. Eles, por assim dizer, falam a nós tudo aquilo que desejamos ouvir; veem e se agradam daquilo que mostramos em nosso viver; ouvem e concordar com tudo o que falamos; cheiram e se agradar do cheiro real de nossas vidas, muitas vezes podres por dentro; tocam-nos com suas mãos, nos sentem e nos acariciam mostrando que aceitam tudo aquilo que fazemos; andam e nos guiam pelo caminho que desejamos traçar. Esculpimos deuses que nos mostram que podemos ser e fazer tudo o que realmente queremos, mas no lugar de sermos aceitos verdadeiramente, nos transformamos nestas esculturas: não podemos falar com Deus, ver a Deus, ouvir o que Ele tem a nos dizer, sentir o seu bom cheiro, toca-lo, senti-lo e muito menos caminhar com Ele. E ao invés de estarmos diante de nosso Deus, estamos diante de um espelho e enxergamos a nós mesmos como deuses, numa autoidolatria, pois acreditamos que somos melhores do que os demais, e que sabemos mais do que todos, e que não devemos nada a ninguém. E isto é o que mais nos afasta da Presença Divina.
Contra este sentimento o salmo nos ensina a confiarmos no Senhor. O verbo confiar, no original hebraico batah, literalmente é correr em busca de refúgio. E observe que o convite a esta corrida é a Yisra’el, a Casa de Aharon [Aarão] e a todos os temem ADONAI [o Senhor]. Vemos neste convite que “nenhuma descendência física (Yisra’el) e nenhuma ordenação sacerdotal (casa de Aharon) é suficiente para uma pessoa pertencer a este último grupo (todos os que temem ADONAI), que adora a Deus em espírito e em verdade (Jo 4.24).” (SHEDD, Russel P. Bíblia Shedd, São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 882).
E, da mesma forma que já conversamos antes, a confiança no Senhor, não é simplesmente o fruto de um mandamento, mas um concelho daquele que já desfrutou de tudo o que o Senhor é: auxílio, escudo, aquele que se lembra de nós e nos abençoa. Não é confiar para buscar os benefícios de um deus/escravo, mas a confiança em um Deus que já nos abençoou. É interessante notar que inclusive a palavra bênção no hebraico é barakh, que significa ajoelhar-se, sugerindo o dobrar do joelho durante a benção. Este dobrar mostra uma sujeição, um reconhecimento de autoridade. Deste modo ser abençoado não significa simplesmente ser premiado com aquilo que desejo, mas um reconhecimento de quem verdadeiramente é Deus, e uma sujeição à Sua vontade, e esta vontade, colocada em prática em minha vida, é que irá me beneficiar.
Por muito tempo justificamos nossa má conduta dizendo que na sociedade em que vivemos é difícil agir de acordo com a Palavra. Realmente é difícil, mas não é impossível. Tudo é uma questão de prioridades, de importância, de peso. Se me preocupo primeiramente com a maneira que desejo me sentir, com a turma que desejo andar, com a música que desejo ouvir, criarei um ídolo para mim e me tornarei como ele.
Não quero fazer a famosa distinção entre música secular e música gospel, pois acredito que esta não corresponda a atualidade. O fato é que quem compõe músicas coloca nas mesmas o que ele sente, e estes sentimentos são gerados em nossos corações ao ouvirmos. Assim, quando ouvimos uma música que fala de depressão, nos sentimos deprimidos, quando ouvimos uma música que fala de violência, ficamos violentos. E isto ocorre também com filmes, com livros, e assim por diante com as informações que recebemos de diversas mídias. O sentimento que estava no coração dos autores é gerado dentro de nós. Isto mostra os cuidados que precisamos ter com aquilo que assistimos e ouvimos, e, infelizmente, hoje em dia este cuidado não é só observar se o escritor/compositor se converteu ou não, até porque somente Deus pode dizer se alguém realmente converteu os seus caminhos ao Senhor. Vemos diversos cantores “gospel” incentivar em suas músicas somente o pedir para Deus e um relacionamento baseado em lucro pessoal, o ser melhor que os outros, e diversos outros tipos de sentimentos destrutivos. O cuidado é analisar realmente o tipo de mensagem e de sentimento que está por trás daquilo que assistimos e ouvimos e baseado nesta análise, a decisão: isto é para mim?
Semelhantemente preciso tomar cuidado com o tipo de lugar que tenho frequentado, e com quem tenho andado. Isto não é para se tornar uma acepção de pessoas, mas um convite para que eu seja o homem/mulher que Deus realmente criou, com ações condizentes com a de um filho de Deus, e não a pessoa que eu me torno para ser aceito em determinada turma. Assim, se um lugar é estabelecido para que as pessoas se prostituam, não é um lugar para mim, se um lugar é estabelecido para que os bons costumes não sejam praticados, não é um lugar para mim. Muitos dizem terem liberdade para escolher aonde ir, e isto de certa forma é uma verdade. Nosso Messias nos libertou, e deste modo temos liberdade de escolha entre estar com Deus e não estar com Deus. As minhas decisões tomadas diante desta liberdade definirão que deus realmente escolhi: o verdadeiro Deus, ou qualquer um outro.
E não se engane, somos mais fortes que o sistema. Recentemente li uma matéria que me chamou muita atenção. Embora não goste de novelas li alguma coisa a respeito de uma recente novela da Rede Globo que mostrava basicamente a má conduta governando. Esta emissora é conhecida por ditar moda entre o povo brasileiro, porém esta novela teve um alto índice de rejeição primeiramente pelos evangélicos que a boicotaram e por diversas famílias brasileiras que preferiram uma programação mais familiar oferecida por outras emissoras. Com baixíssimos níveis de audiência, o roteiro da novela foi alterado para que a mesma não fosse cancelada.
Assim não preciso me corromper para ser como o sistema, posso permanecer em Deus e ser a diferença. Só temos uma oportunidade de viver, e com isto apenas uma oportunidade de escolher louvar ao Senhor com nossa vida. Temos diante de nós uma escolha, e temos a oportunidade de escolher conquistada por Yeshua, e a força para escolher mediante o Ruach HaKodesh [Espírito Santo]. Mas ninguém irá escolher por nós, somente eu poderei dizer a que deus eu estou disposto a servir, e mais do que uma frase dita em um dia em que minhas emoções foram tocadas, esta escolha é feita a cada dia mediante as minhas atitudes.

“Não a nós, ADONAI, não a nós, mas a teu nome seja a glória” é a oração sincera de alguém que já fez a sua escolha. A escolha de quebrar o espelho que está a sua frente e o ídolo que está ao nosso lado para servir o verdadeiro Deus.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A Importância do Ensino da Torah

“Todo o povo se reuniu de comum acordo no espaço aberto diante do portão da Água e pediu a ‘Ezra, o mestre da Torah, para trazer o pergaminho da Torah de Mosheh, que ADONAI entregara a Yisra’el. ‘Ezra, o kohen, levou a Torah diante da assembleia, que constituía em homens, mulheres e todas as crianças com idade suficiente para entender. Era o primeiro dia do sétimo mês. De frente para o espaço aberto diante do portão da Água, ele leu para os homens, as mulheres e as crianças capazes de entender desde a manhã até o meio-dia; e todo o povo prestou atenção [à leitura] do pergaminho da Torah. ‘Ezra, o mestre da Torah, estava em uma plataforma de madeira, feita com esse propósito; ao lado direito dele, estavam Mattityah, Shema, ‘Anayah, Uriyah, Hilkiyah e Ma’aseiyah; e à sua esquerda, P’dayah, Misha’el, Malkiyah, Hashum, Hashbadanah, Z’kharyah e Meshulam. ‘Ezra abriu o pergaminho onde todo o povo pudesse vê-lo, pois ele estava em um nível mais alto que todo o povo; quando ele abriu, todo o povo se pôs em pé. ‘Ezra bendisse ADONAI, o grande Deus, e todo o povo respondeu: ‘Amen, Amen!’, enquanto eles levantavam as mãos, abaixavam a cabeça e se prostavam diante de ADONAI, com o rosto em terra. Os l’vi’im Yeshua, Bani, Sherevyah, Yamin, ‘Akuv, Shabtai, Hodiyah, Ma’aseiyah, K’lita, Azaryah, Yozavad, Hanan e P’layah explicavam a Torah ao povo, enquanto o povo permanecia em seu lugar. Eles leram com clareza o pergaminho, a Torah de Deus, traduziram-na e fizeram o povo entender o que era lido.”
“Nechemyah, o tirshata, ‘Ezra, o kohen e mestre da Torah, e os l’vi’im que ensinavam o povo disseram: ‘Consagrem-se hoje a ADONAI, seu Deus; não lamentem nem chorem’. Pois o povo chorou quando ouviu as palavras da Torah. Então ele lhes disse: ‘Vão, alimentem-se bem, tomem bebidas doces e enviem porções de comida a quem não tiver provisão, pois hoje é um dia consagrado ao nosso Senhor. Não fiquem tristes, pois a alegria de ADONAI é a sua força’. Desse modo, os l’vi’im acalmaram o povo, pois disseram: ‘Estejam calmos, pois hoje é um dia sagrado; não fiquem tristes’. Em seguida, o povo partiu para comer, beber, enviar porções e celebrar, pois haviam entendido as palavras que lhes tinham sido comunicadas.”
(Nechemyah [Neemias] 8.1-12 BJC [Bíblia Judaica Completa])

            A passagem acima narra um evento ímpar na história do povo de Yisra’el [Israel], um divisor de águas na história dos israelitas, onde enxergamos o Eterno agir entre Seu povo, para aproximá-los do propósito que desde o princípio traçou para eles, a partir do chamado de Avram [Abrão], que posteriormente teve seu nome mudado para Avraham [Abraão]. Todo este grande mover começou com a leitura e a explicação da Torah [ensino, Lei, Pentateuco], feita pelo kohen [sacerdote] ‘Ezra e os l’vi’im [levitas] e gerou uma transformação tão grande entre todos os israelitas, mudanças que trataremos mais adiante, que gostaria de dedicar esta meditação a responsabilidade que todo aquele que intenta estar diante do Criador possui de conhecer os Seus ensinamentos.
            Originalmente os livros de ‘Ezra [Esdras] e Nechemyah [Neemias] constituíam apenas uma obra que narra o retorno do povo de Yisra’el do cativeiro babilônico. O livro de ‘Ezra nos ensina que, em aproximadamente 539 A.E.C. [Antes da Era Comum], Koresh [Ciro], rei da Pérsia, promulgou um decreto permitindo que o povo de Yisra’el retornasse a Yerushalayim [Jerusalém] a fim de reconstruir o Templo destruído anos antes por N’vukhadnetzar [Nabucodonosor] (Ed 1.1-4). Em meio a uma grande oposição, esta obra foi concluída, entre 539 e 516 A.E.C., sob a orientação de Z’rubavel [Zorobabel] e dos profetas Hagai [Ageu] e Z’kharyah [Zacarias] (Ed 3 a 6; Ag; Zc).
            Após a reconstrução do Segundo Templo, entre 485 e 474 A.E.C, ocorreu o grande livramento narrado em Ester, até que, em aproximadamente 459 A.E.C, o kohen ‘Ezra vai a Yerushalayim a fim de ensinar ao povo a Torah (Ed 7 a 10). Anos mais tarde, em 445 A.E.C., Nechemyah vai a Yerushalayim a fim de reconstruir os muros da cidade (Ne 1 a 7).
            Desde modo, no início da passagem lida no início desta meditação, encontramos um povo escolhido pelo Senhor, que ansiava cumprir os propósitos do Eterno, mas que carregavam dentro de si os costumes, a cultura e o modo de vida que os 70 anos que ficaram sob o domínio babilônico havia impostos a eles. Muitos estavam casados com estrangeiras, muitos nem sequer conheciam o que a Torah falava, eles nem falam mais hebraico, a língua em que a Torah foi escrita.
            Assim, mais do que um propósito humano, vejo que era um desejo divino que a Torah fosse mais uma vez ensinada, a fim de que o povo tivesse mais uma oportunidade de conhecer o seu Deus, e relacionar-se adequadamente com Ele. Assim começa a leitura pública promovida por ‘Ezra, o kohen, e Nechemyah, o tirshata, [tirsata], o governador.
            Existem diversos aspectos nesta passagem que gostaria de ressaltar, a fim de extrair verdades muitas vezes não percebidas durante uma leitura rápida.
            O primeiro aspecto é o quando esta leitura ocorreu. O texto é claro ao dizer que foi no começo do sétimo mês (Ne 7.73 (8.1)), e que “era o primeiro dia do mês” (Ne 8.2). Ora, o sétimo mês no calendário bíblico é o mês de Tishrê, e exatamente este dia é o dia do toque do shofar [trombetas] (Vayikra [Levítico] 23.23 a 25), hoje conhecido como Rosh Hashaná, a cabeça do ano judaico. As trombetas são símbolos de testemunho, relacionadas com o reajuntamento e o arrependimento de Yisra’el (Is 18.3, 27.13 e Jl 2.1-3.21), e o toque do shofar marca o início de um dos períodos mais sagrados para todos os judeus com o Rosh Hashaná no dia 1 de Tishrê, Yom Kipur, o Dia do Perdão, no dia 10 de Tishrê e Sucot, a Festa das Cabanas (Tabernáculos) no dia 15 de Tishrê. Desta forma, o dia de tal reunião de leitura não foi um acaso, mas uma data escolhida nos céus para marcar o início de um novo tempo a todos os israelitas, um dia descrito pela Torah como uma “santa convocação” (Lv 23.24).
            Vejo, através disto, que nosso Senhor é um Deus de recomeços. Ele sempre nos chama a recomeçarmos nossa vida ao Seu lado. Através de Sua Torah, sempre nos convida a uma vida consagrada, uma vida vivida debaixo do entendimento que temos sobre nossas cabeças o nosso Criador, e inclusive sobre o nosso pensar devemos entroniza-lo. Este é o significado do Kipa, que utilizamos, mas mais do que uma vestimenta, precisamos deste entendimento.
            O texto continua dizendo que “todo o povo se ajuntou como um só homem” (Ne 8.1). Mais uma vez é um indicio da maneira como o Senhor deseja atuar: entre o Seu povo. Isto me ensina que nosso crescimento deve ser em unidade, sem que uma determinada pessoa acabe se sobressaindo sobre os demais. Muitos adquirem conhecimento apenas para parecerem importantes, para estarem à frente de um povo, mas é apenas o Eterno quem deve realmente aparecer. Um p’rushim [fariseu] chamado Sha’ul [Paulo], anos mais tarde, ensinou que a tarefa de qualquer um que obteve algum entendimento é “preparar o povo de Deus para a obra de edificar o corpo do Messias, até que todos cheguemos à unidade implicada pelo confiança e pelo conhecimento do Filho de Deus, e à plena virilidade, segundo o padrão de maturidade estabelecido pela perfeição do Messias.” (Efésios 4.12 e 13 BJC).
            Crescer como um corpo é crescer uniformemente. Em um corpo saudável não é apenas a mão que cresce, nem só a perna, ou a cabeça. Mas cada membro ou órgão de nosso corpo cresce juntamente com todos os outros de modo sincronizado e proporcional. Assim deve ser o povo de Deus: precisamos crescer em unidade, aprender a viver para o Senhor uns com os outros e amadurecermos o nosso comportamento de modo sincronizado, assim nenhum de nós irá parecer superior aos demais, mas como um só corpo seremos capazes de realizar a vontade de nosso Deus, de modo que apenas Ele apareça.
            Observe que ‘Ezra é descrito como mestre da Torah [escriba] (Ne 8.1,4,9) e como kohen [sacerdote] (Ne 8.2,9). Como kohen ele era responsável pela preservação dos pergaminhos da Torah e de tudo aquilo que pertencia ao Senhor. Como mestre da Torah ele era responsável por copia-la em novos pergaminhos a fim de difundir entre todo o povo a Lei do Senhor e substituir os manuscritos afetados pelo tempo. Ele foi o responsável por preservar e ensinar a Palavra de Deus. A Torah foi lida e explicada durante aproximadamente seis horas por dia em 23 dias (Ne 8.3,18,9.1-3) começando em Rosh Hashaná e terminando somente em Simchat Torah. Ele só foi capaz de realizar tal obra, pois primeiramente “dedicava o coração ao estudo e à prática da Torah de ADONAI e ao ensino a Yisra’el de suas leis e regras.” (‘Ezra 7.10 BJC). Ele não agiu em seu próprio interesse, não realizou sua própria vontade, mas da mesma forma que estudava a Torah de coração, obedeceu ao decreto do Senhor de ler publicamente a Lei (Dt 31.9-11).
            Observe que ‘Ezra não estava sozinho nesta empreitada, vemos que treze homens “estavam de pé junto a ele” (Ne 8.4) sobre um púlpito de madeira. Não eram homens quaisquer, mas líderes das famílias israelitas. Naquele momento estavam todos em unidade declarando a importância do que estava sendo lido. Todos entendiam o que mais tarde Sha’ul expressou nas palavras: “Faça tudo o que puder para se apresentar a Deus como alguém digno de aprovação, um trabalhador que não precisa se envergonhar, porque anda retamente na Palavra da Verdade.” (2 Timóteo 2.15 BJC) e refletiram os serviços concedidos por Yeshua [Jesus] para preparar o povo, conforme outra vez Sha’ul ensina: “Além do mais, ele concedeu algumas pessoas como emissários, algumas como profetas, outras como proclamadores das boas-novas, e outras como pastores e mestres.” (Efésios 4.11 BJC). Isto nos ensina que todos os serviços (dons) concedidos por Yeshua devem agir em unidade no ensino da Palavra de Deus, devem falar a mesma linguagem.
            Não adianta o ensino sem uma vida condizente com a mensagem. Muitas de nossas crianças escutam de nossos lábios e dos mestres da Torah nas salas específicas para elas a Palavra do Senhor. Mas nada disso fará diferença se nós, pais, não formos exemplos em nossos lares. Não agirmos em conformidade com a Palavra. Não vamos acertar sempre, mas o que nos impede de pedir perdão quando errarmos? Não vamos ter respostas para todos os questionamentos, mas o que nos impede de procurarmos junto com eles o esclarecimento das dúvidas?
            Quando Sha’ul fala a respeito dos cinco ministérios em Efésios 4.11 ele não está dizendo que a responsabilidade é apenas da liderança da Comunidade Messiânica, mas nos mostrando que somos responsáveis por todos aqueles que nos olham como portadores de autoridade, incluindo nossos filhos.
            A Torah não foi apenas lida por ‘Ezra. O texto declara que treze l’vi’im “explicavam a Torah ao povo” (Nechemyah 8.7 BJC), “Eles leram com clareza o pergaminho, a Torah de Deus, traduziram-na e fizeram o povo entender o que era lido.” (Nechemyah 8.8 BJC). Não foi apenas uma leitura, mas uma aula, um ensinamento profundo das verdades bíblicas. Eles estavam traduzindo a Torah do hebraico, que não era mais falado pelo povo, para o Aramaico, a língua que todos apenderam durante o cativeiro babilônico, e retornou de lá falando. Com certeza não tratava-se apenas de uma tradução simultânea, mas de uma explicação do significado daquelas palavras e de uma contextualização a uma cultura a muito esquecida.
            Para isto existiam diversos professores, o que muito provavelmente dividiu o povo em grupos, a melhor maneira de aprendermos a Palavra. Numa grande reunião apenas ouvimos, mas o completo aprendizado ocorre quando não apenas ouvimos, mas participamos com nossas perguntas e comentários, e isto somente é possível através de pequenos grupos de estudo.
            Após a leitura e explicação vimos que “todo o povo chorou quando ouviu as palavras da Torah” (Nechemyah 8.9 BJC). Ao ser confrontado pela Palavra, o povo se entristeceu. O que para muitos parece um sinal positivo, foi visto por Nechemyah e ‘Ezra como algo que deveria parar. A orientação dada por eles ao povo foi para não chorarem, ou seja, a emoção deveria ser deixada de lado para que o pleno entendimento da Palavra gerasse frutos.
            É relativamente fácil tocar a emoção de um povo. Um vídeo, algumas palavras bonitas, uma música bem tocada, pode levar nossas emoções e fazer-nos aceitar determinados fatos. Um bom orador consegue te convencer de qualquer coisa. Mas não era este o propósito da leitura da Torah e certamente não é este o propósito do Senhor nos dias de hoje. Embora somos seres emocionais nossa emoção muda constantemente, deste modo não podemos confiar nas mesmas para algo tão importante quanto o ensino da Torah. Mosheh em D’varim diz: “Não façam nada da maneira que fazemos aqui hoje, onde cada um faz o que lhe parece melhor;” (D’varim 12.8 BJC). Isto é o fruto de nossas emoções: cada um faz o que sentir de fazer, o que acha que é a vontade de Deus.
            Mas se deixarmos nossas emoções de lados e abrirmos nossa mente e o nosso coração às verdades do Senhor declaradas em Sua Palavra entenderemos que “hoje é um dia consagrado ao nosso Senhor. Não fiquem tristes, pois a alegria de ADONAI é a sua força.” (Nechemyah 8.10 BJC). Observe que não é a nossa alegria, mas a alegria do Senhor. Assim quando através das Escrituras nos esforçamos para alegrar nosso Deus, é que somos um povo forte.
            A leitura da Torah, conforme mencionamos acima, começou em Rosh Hashaná. Embora o texto não afirme isto, pelo tempo que o povo ficou lendo diariamente as Escrituras ela passou por Yom Kipur, que marca o arrependimento e a expiação do povo de Yisra’el e chegou até Sucot.
            A primeira consequência deste tempo em que a Palavra do Senhor foi ensinada foi a restauração de Sucot (Ne 8.13-18). O Tanakh [Antigo Testamento] declara que desde os tempos de Yeshua [Josué], aproximadamente 1420 A.E.C. não se festejava esta data conforme o ordenado. Sucot é uma festa profética, pois lembra o reajuntamento e a restauração de Yisra’el sob o Reino Messiânico. É através do Ensino da Palavra que somos estabelecidos no Reino do Messias.
            Logo após Sucot temos a festa de Simchat Torah. Embora esta data não seja ordenada nas páginas das Escrituras, é uma grande festa, onde os judeus se alegram pela Torah dançando os rolos da Lei em seus braços. Esta alegria pelo ensinamento trazido pela Palavra do Senhor gera em nossos corações o verdadeiro arrependimento, não um simples remorso.
            O arrependimento genuíno é uma mudança de pensamento, gerada pelo ensino da Lei, uma mudança de sentimento, gerada pelo Ruach Hakodesh [Espírito Santo] em nosso interior, e uma mudança de atitude, gerada pela nossa decisão de nos adequarmos à Palavra do Senhor (Ne 9.1-3).
            O Ensino da Palavra produz em nós um pleno conhecimento de Deus, e somente os lábios daqueles que conhecem ao Senhor conseguem louvá-lo verdadeiramente. Deste modo o ensino da Palavra produz como consequência o louvor genuíno (Ne 9.4-37). Não podemos louvar quem não conhecemos, e a falta deste conhecimento muitas vezes tem produzido um louvor com falsidade.
            Após isto, o ensino levou ao povo a reestabelecer a aliança que tinham com Deus (Ne 9.38-10.39). Com corações arrependidos e um conhecimento do Senhor eles assumiram o compromisso de viver para o Senhor. “Eles verdadeiramente são o povo de Deus porque estão dispostos a agir como tal.” (HOUSE, Paul. Teologia do Antigo Testamento, p. 655).
            E somente depois de tudo isto é que o trabalho de Nechemyah, a reconstrução dos muros de Yerushalayim, foi dedicado ao Senhor (Ne 12.27-43). A obra de Deus não pode ser feita da forma que queremos, nem fazer aquilo que desejamos. Só podemos realizar a obra do Senhor se estamos debaixo de Sua Palavra.
            E por fim, o ensino da Torah trouxe a restauração do serviço no Templo (Ne 12.44-47). É o ensino da Palavra que irá restaurar nosso culto ao Senhor. O alvo de todo culto é o Senhor e não o homem. Deus é quem precisa ser cultuado em nossas vidas, nossas famílias e nossas reuniões. Passamos tempo demais tentando agradar a homens para atrair seguidores, conquistar fiéis e preencher os bancos vazios de nossos salões. Deus é quem precisa ser agradado quando nos reunimos em Seu nome.
            Como todas estas coisas surgiram após a leitura e o ensino da Torah promovida por ‘Ezra e pelos l’vi’im podemos concluir que não existe crescimento espiritual nem vida com Deus sem um aprendizado verdadeiro de Sua Palavra.

            Que este aprendizado seja nosso objetivo neste dia, e a cada dia de nossas vidas.

domingo, 11 de janeiro de 2015

O Tanque de Beit’Zata [Betesda]

“Depois disso, houve uma festa, e Yeshua [Jesus] subiu a Yerushalayim [Jerusalém]. Em Yerushalayim, perto do portão das Ovelhas, existe um tanque chamado em aramaico Beit’Zata, no qual fica uma grande multidão de inválidos: cegos, mancos e paralíticos. Um dos que estavam ali era doente fazia trinta e oito anos. Yeshua, vendo esse homem e sabendo que ele estava ali durante um longo período, disse-lhe: ‘Você quer ser curado? ’. O doente respondeu: ‘Não tenho ninguém para me colocar no tanque quando a água é agitada; e, quando tento chegar lá, alguém me ultrapassa’. Yeshua lhe disse: ‘Levante-se, pegue sua esteira e ande! ’. Imediatamente o homem foi curado, pegou a esteira e andou. Isso aconteceu em um shabbat [Sábado]; por isso, os habitantes de Y’hudah [Judá, Judeia] disseram ao homem que havia sido curado: ‘É shabbat! A Torah [ensino, Lei, Pentateuco] não permite que você carregue a esteira! ’. Mas ele respondeu: ‘O homem que me curou disse: ‘Pegue sua esteira e ande’’. Eles lhe perguntaram: ‘Quem é o homem que lhe disse para pegar a esteira e andar? ’. Mas o homem curado não sabia quem ele era, porque Yeshua havia desaparecido no meio da multidão.”
(Yochanan [João] 5.1 a 13 BJC [Bíblia Judaica Completa])

            Nesta mensagem gostaria de refletir a respeito do milagre operado por Yeshua no tanque de Beit’Zata, operada provavelmente no segundo ano do ministério de Yeshua em uma de suas visitas a Yerushalayim.
            Sabemos que a ocasião da visita a Yerushalayim era uma festa, provavelmente uma das três regalim [festas de peregrinação], a respeito das quais Mosheh [Moisés] ensina: “Três vezes ao ano, todos os seus homens deverão aparecer diante de ADONAI, seu Deus, no lugar que ele escolher – na festa de matzah [pão sem fermento], na festa de Shavu’ot [festa das Semanas, Pentecostes] e na festa de Sukkot [Festa das Cabanas, tabernáculos]. Que eles não apareçam diante de ADONAI com as mãos vazias; todo homem deverá contribuir com o que puder, de acordo com a bênção que lhe foi dada por ADONAI, seu Deus.” (D’varim [Deuteronômio] 16.16 e 17 BJC). Muitos especulam que nesta ocasião era a festa de Pesach [Páscoa], a festa de matzah, mas não temos dados no texto que permitam identificar a festa com precisão.
            O fato é que acontecia entre o povo de Deus uma das três regalim, e Yeshua, assim como todos os homens de Yisra’el [Israel] subiram a Yerushalayim para adorar ao Senhor nesta ocasião, e oferecer suas ofertas no Beit Hamikdash [Templo]. Nesta passagem, encontramos Yeshua perto da porta das Ovelhas, um dos portões da cidade de Yerushalayim, próximo da Fortaleza Antônia, por onde entrava a maioria dos animais para os rituais do Templo. Mais precisamente, ele estava caminhando no tanque de Beit’Zata.

            O Tanque de Beit’Zata foi encontrado durante escavações próximas ao Convento de Santa Ana, e era construído em dois níveis, sendo que o agitar das águas acontecia quando a água descia do tanque superior para o inferior.  Nestas escavações foram encontradas esculturas de cobras, moedas e dizeres que relacionam o tanque ao deus greco-romano Asclépio ou Esculápio, representado por um bastão de cura e uma cobra.

Desta forma, apesar do tanque ter sido construído como um reservatório de água para o Templo, após o período dos Macabim [Macabeus], quando ocorreu a helenização de Yerushalayim, o tanque não era um local religioso israelita, mas um lugar dedicado a Asclépio, o deus da cura, um dos deuses mais amigáveis do panteão greco-romano, pois era o deus que agia em prol da humanidade.
Assim, voltando à passagem de Yochanan, aquele homem doente a trinta e oito anos buscava sua cura não no Deus de Yisra’el, mas em um deus pagão. Tratando-se de um israelita isto era algo grave, pois foi ensinado a respeito do Eterno desde sua infância. Mas os trinto e oito anos de doença o fizeram esquecer-se disto.
Os especialistas dizem que se fizemos algo por 21 dias seguidos, isto se torna um hábito. Assim, com certeza ele já havia se acostumado com sua doença e esta condição já havia transformado-o. No início ele lutou contra, procurou a cura, foi atrás de médicos, talvez fez promessas, mas o tempo foi passando, e com ele as esperanças foram acabando. Um dia, ele acabou ouvindo a respeito de um deus diferente: o deus da cura, e passou a frequentar o templo deste deus por um longo período, buscando a cura. Provavelmente para ele esta era sua última oportunidade e desta maneira estar naquele local se tornou algo tão rotineiro e comum que provavelmente ele nem se imaginava vivendo fora daquele local. Talvez nesta altura de sua vida, a cura tenha até ficado em segundo plano, afinal ele só lembrava-se de sua vida doente, as memorias do tempo de saúde ficaram para traz. Fico impressionado ao observar que Yeshua já exercia seu ministério há quase dois anos e havia operando muitas curas, mas este homem continuava buscando um deus greco-romano.
Nossos problemas fazem isto conosco. Quando enfrentamos uma situação adversa inicialmente lutamos contra, não nos conformamos em estar numa situação como esta, buscamos solução, mas muitas vezes ao ver que nada se resolve deixamos a situação nos mudar. Tornamo-nos pessoas amargas, sem esperança, sem fé. Esquecemos que existe um Deus acima de nós. Não conseguimos ver Yeshua a nossa frente perguntando: “Você quer ser curado?”.
Passamos a confiar em sistemas humanos, acreditando que uma pessoa pode mudar nossa situação, e assim elegemos homens e mulheres sagrados para que a partir dos mesmos alcancemos o favor divino. Criamos ou passamos a fazer parte de um conjunto de rituais, achando que nossas ações irão tornar Deus favorável a nós. Visitamos locais e fazemos peregrinações, tentando encontrar aquilo que irá promover a mudança que necessitamos. Mas pessoas sagradas, rituais sagrados e locais sagrados são apenas elementos de uma religião, algo criado pelo ser humano na tentativa de alcançar a Deus. E quando nos envolvemos em tudo isto não conseguimos enxergar que o nosso Deus não precisa ser alcançado, Ele decidiu nos alcançar.
Desde o princípio vemos o Eterno buscando se relacionar com o homem.  Ele foi atrás de Adam [Adão] (Gn 3.9). Ele foi atrás de Kayin [Caim] (Gn 4.9). Ele vem até nós, buscando um relacionamento, assim como Yeshua, o Messias, foi até o homem no tanque de Beit’Zata. Assim, precisamos abrir os nossos olhos para enxergar nosso Deus em nossa frente.
Ao encontrar com aquele doente, Yeshua perguntou: “Você quer ser curado?”. O interessante é que ele não afirmou que desejava ser curado, nem negou este desejo. Ele simplesmente afirmou que nunca conseguiria alcançar a cura, pois não poderia entrar nas águas. Mesmo diante daquele que já efetuara diversas curas, ele continuava se apegando a doutrinas e costumes humanos. Ele não reconheceu a verdade que estava bem a sua frente em meio à vida de mentiras que vivia.
O Senhor nos pergunta a cada instante: “Você deseja que esta situação mude?”, porém muitas vezes nossa resposta é como a daquele homem: “Senhor, não tem como isto mudar!”. Porém não há nada que seja impossível para Deus (Lc 1.37). E este Deus deseja efetuar a mudança em sua vida de dentro para fora. A questão não é a simples cura de uma doença, ou a abertura de uma porta de emprego. Não é somente uma restauração de um matrimônio destruído. A mudança que o Senhor deseja gerar em nós começará em nosso conformismo, passará para o nosso sistema de crenças, e terminará em nossas atitudes.
Precisamos deixar para traz toda esteira que nos permite ficarmos deitados em nossos problemas. Acabamos ficando acomodados em nossas dificuldades e tribulações e não fazemos nada para mudar, enquanto a maior mudança que é necessária é a mudança de nós mesmos, de nossos hábitos. Precisamos deixar os “Eu sempre fui assim” de lado, e passarmos a declarar “Renova a minha vida, mude a minha maneira de pensar e agir”. Não estou de modo algum declarando que as doenças que temos são frutos de nossas atitudes, mas independente de nossas condições físicas ou psicológicas, não podemos deixar nossas dificuldades nos derrubar, mas enxergar que temos um Deus que é maior que elas.
Após deixar para traz toda situação de inércia em nossas dificuldades, é necessário revermos em que temos acreditado. Sistemas humanos podem até serem belos e tocarem em nossas emoções, mas quando se trata de alcançarmos a Deus, são totalmente ineficientes. Fazer o que achamos correto nunca dará certo. Rituais e promessas acabam no fundo sendo meras simpatias. Precisamos enxergar além de nossos problemas e das soluções a eles oferecidas pela sociedade que nos cerca nosso Senhor a perguntar: “Você quer ser curado?”. Deus está conosco mesmo nos locais menos imaginados possíveis, assim como Yeshua estava com aquele homem dentro do templo de Asclépio. A grande questão sempre é: nós estamos com Deus?
Este grande Deus veio até nós e nos pergunta: “Você deseja que Eu efetue esta mudança?”, “Você acredita que Eu sou capaz de realiza-la?”. Ele não pergunta o que fizemos, ou qual é a maneira que queremos que opere. Ele questiona se desejamos o Seu operar, se cremos que Ele sabe o que é melhor para nós.
E assim quando desejamos a solução dos nossos problemas que vem do Senhor, o Deus vivo passa a operar dentro de nós nos ensinando a agir de modo diferente, apesar das adversidades. Este é o segredo de nossa caminhada com Deus: enxergar o Pai ao nosso lado mesmo em meio às tribulações. Normalmente temos a tendência de elaborar o projeto de como é a nossa vida perfeita e de como deve ser o agir de Deus em nós, e nos decepcionamos quando Deus não faz a Sua parte. Mas nosso Deus está acima de nossos projetos, e mesmo que não concordemos ou não gostemos do rumo que Ele levou a nossa vida, precisamos nos lembrar de que o desejo de Deus “é bom, satisfatório e fadado ao êxito.” (Romanos 12.2 BJC).
O último ponto interessante na passagem é que a cura aconteceu num shabbat, um sábado, o dia de descanso. Muitos acreditam que o sábado é o sétimo e último dia da semana, e de certa maneira, observando a criação de todas as coisas em B’reshit [Gênesis] 1, esta contagem está correta. Mas tendo em vista que a criação da humanidade só ocorreu no sexto dia, após criar todos os animais, o primeiro dia que o homem viveu foi o shabbat.

Assim, contando desde a criação do homem, cada semana começa com o shabbat, ou seja, nossos dias devem começar descansando no Senhor, sabendo que Ele é o nosso provedor. Foi num shabbat que aquele homem levantou-se curado e deixou o tanque de Beit’Zata. É no conhecimento de ADONAI Yir’eh [ADONAI vê, ADONAI proverá] que deixaremos o que tem nos prendido para traz para caminharmos ao lado de nosso Criador.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Ser conhecido por Deus

“Cuidado com os falsos profetas! Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos famintos! Vocês os reconhecerão pelo fruto. Pode alguém colher uvas de espinheiros ou figos de plantas espinhosas? Semelhantemente, toda árvore saudável produz bom fruto, mas a árvore doente produz fruto mau. A árvore saudável não pode dar fruto mau, nem a árvore doente produzir fruto bom. Toda árvore que não produz fruto bom é cortada e lançada ao fogo! Assim, vocês os reconhecerão pelo fruto.”
“Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor! ’ entrará no Reino do Céu, mas apenas quem faz o que meu Pai celestial deseja. Naquele dia, muitos me dirão: ‘Senhor, Senhor! Não profetizamos em seu nome? Em seu nome não expulsamos demônios? Não realizamos muitos milagres em seu nome? ’ Então eu lhes direi na cara: ‘Nunca os conheci! Afastem-se de mim, praticantes do que é contra a lei! ’.”
(Mattityahu [Mateus] 7.15 a 23 BJC [Bíblia Judaica Completa])

            Entre os capítulos 5 e 7 das boas-novas sobre Yeshua [Jesus], o Messias, contadas por Mattityahu [Mateus], lemos diversos ensinos de Yeshua a seus talmidim [discípulos], ditos sobre um monte, chamados por muitos de “O Sermão do Monte” ou “O Sermão da Montanha”. Nestes ensinos vemos nosso Mestre interpretar a Torah [Ensino, Lei, Pentateuco] como era o costume de diversos Rabis [Mestres] naquele tempo.
            Os versículos que lemos acima se encontram no final desta seção e servirão como base daquilo que desejo transmitir a você, onde procuraremos responder a nós mesmos a pergunta: “Deus nos conhece?”.
            É muito interessante notar que nos primeiros versículos (15 a 20), Yeshua está tratando dos falsos profetas, pessoas que tentarão aproveitar-se da fé dos seguidores do Messias para benefício próprio. Em uma curta mensagem que me lembra da mensagem do profeta Yechezk’el [Ezequiel] aos pastores de Yisra’el [Israel] (Yechezk’el 34), que se alimentam a si mesmos ao invés de alimentar o rebanho, Yeshua diz que os reconheceremos pelo fruto, ou seja, por aquilo que realmente produzem. Em segunda instância, nosso Mestre continua o mesmo discurso nos mostrando que assim como podemos conhecer as pessoas por aquilo que elas fazem, nosso Pai conhece aqueles que fazem o que Ele deseja.
            Talvez para aqueles que pouco conhecem da Bíblia, esta pareça ser uma declaração de um deus autoritário e manipulador, porém ao analisarmos todo o sermão chegamos a conclusão que fazer o que o Senhor deseja significa promover o bem, a justiça e viver plenamente independentemente das diversidades, buscando o que há de melhor em nosso interior.
            Desta forma, gostaria mais uma vez, fazer com que você responda a si mesmo: Será que Deus te conhece? Você é o tipo de pessoa com quem Deus andaria? Após responder a estas perguntas, tente dizer a si mesmo o porquê de sua afirmação ou negação.
            Normalmente nossos motivos são baseados naquilo que fazemos, porém observe no texto que muitos tentarão provar que são conhecidos por meio de suas obras: profetizar, expulsar demônios e realizar milagres, mas a resposta do Senhor será a mesma: “Nunca os conheci!”. Deste modo, podemos até levar as pessoas que nos rodeiam a possuírem uma falsa impressão daquilo que somos, através de ações, mas nosso Deus conhece quem realmente somos, ou seja, o fruto que é gerado em nós.

“Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, humildade, autocontrole. Não existe nada na Torah contra essas coisas.”
(Gálatas 5.22 e 23 BJC)

            Algo muito importante e conhecido neste texto é que Sha’ul [Paulo] diz o fruto do Espírito, não os frutos do Espírito. Sendo assim só existe um fruto evidenciado por nove características. Todas aparecem juntas. Há quem diga que o fruto do Espírito é o amor, somente ele, e a alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, humildade e autocontrole são características deste amor. Sem defender uma ou outra opinião, o fato é que este fruto não é gerado através de esforços próprios, mas cresce de forma natural a partir do momento que decidimos viver pelo Espírito, deixando de lado tudo o que nos afasta do alvo estabelecido por Deus.
            Sendo assim, nosso Deus está interessado em quem realmente somos, e não apenas no que fazemos. E aquilo que somos é avaliado mediante o:
Amor: é uma ligação, uma decisão de colocar o outro acima de si mesmo, deixando muitas vezes seus interesses de lado, para promover o bem. Yeshua exemplifica o mandamento “ame o seu próximo como a si mesmo” (Vayikra [Levítico] 19.18) contando a parábola que conhecemos como a do “Bom Samaritano” onde um homem de Shomron [Samaria] ao avistar um ferido desviou de seu caminho para cuidar do mesmo, e pagou uma hospedaria para que este pudesse se recuperar (Lc 10.30-37).
Alegria: onde está a tua alegria? A alegria como fruto do Espírito é aquela que vem do Senhor. Ou seja, não depende das circunstancias que estou vivendo. Evidentemente, posso até me abater momentaneamente por aquilo que acontece ao meu redor, mas não fico nesta situação, pois sei que ao meu lado tenho um Deus maior que tudo.
Paz: Do mesmo modo que a alegria, é o “shalom [paz, tranquilidade, segurança, bem-estar, saúde, contentamento, sucesso, conforto, plenitude e integridade] de Deus, que ultrapassa todo entendimento” (Filipenses 4.7 BJC). Mesmo tendo motivos para estar preocupados, estaremos em paz.
Paciência: Saber contar até dez. Dar uma outra chance. Saber esperar.
Afabilidade: contrário de grosseria. É uma brandura no tato, uma delicadeza. Ser amável, procurar agradar.
Bondade: Praticar o bem. “Portanto, qualquer um que saiba a coisa certa a se fazer e não faz, comete pecado.” (Ya’akov [Tiago] 4.17 BJC). Desta forma, não praticar o bem é pecado.
Fidelidade: ser fiel, mesmo que isto esteja fora de moda. Aquele que cumpre o que se obriga. Lealdade.
Humildade: É uma demonstração de respeito ao outro. Ser modesto.
Autocontrole: Aprender a se controlar. Não da para culparmos nosso gênio.
            Este é fruto do Espírito, e são estas características que o Senhor procura em nós. É interessante notar que ao descrever os dons do Espírito em 1 Coríntios 12, Sha’ul cita nove dons. Vejo isto como um sinal do equilíbrio que precisamos ter em nossas vidas entre os dons espirituais e o fruto do Espírito, e um alerta ao que deve ser o nosso alvo: precisamos nos preocupar mais com o fruto do Espírito em nós do que com os dons espirituais. É mais importante aquilo que somos do que aquilo que fazemos. Nossas ações devem ser fundamentadas no que realmente somos.

“Quando o Filho do Homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, ele se assentará no trono glorioso. Todas as nações serão reunidas diante dele, e ele separará umas das outras como o pastor separa as ovelhas dos bodes. E colocará as ‘ovelhas’ à sua direita, e os ‘bodes’, à esquerda.”
“Então o Rei dirá aos que estiverem à direita: ‘Venham, benditos de meu Pai, recebam sua herança, o Reino preparado para vocês desde a criação do mundo! Porque eu tive fome, e vocês me deram comida; tive sede, e me deram algo para beber; fui estrangeiro, e me trataram como alguém convidado; necessitei de roupas, e vocês as providenciaram; estive doente, e cuidaram de mim; estive preso, e me visitaram’. Então as pessoas que realizaram a vontade de Deus responderão: ‘Senhor, quando o vimos com fome e o alimentamos, ou com sede e lhe demos algo para beber? Quando o vimos como estrangeiro e o recebemos, ou necessitado de roupas e lhe demos o que vestir? Quando o vimos doente ou preso e fomos visita-lo? ’. O Rei lhes responderá: ‘Eu lhes digo que todas as vezes que vocês fizeram essas coisas a algum destes meus irmãos menos destacados, o fizeram a mim’.”
“Então ele também dirá aos que estiverem à esquerda: ‘Afastem-se de mim, malditos! Vão para o fogo preparado para o Adversário e seus anjos! Porque tive fome, e vocês não me deram comida; tive sede, e não me deram nada para beber; fui estrangeiro, e vocês não me receberam; necessitei de roupas, e não me deram nenhuma; estive doente e preso, e não me visitaram’. Então eles também responderão: ‘Senhor, quando o vimos com fome, sede, estrangeiro ou necessitado de roupas, doente ou preso, e não ajudamos? ’. Ele responderá: ‘Digo-lhes a verdade: todas as vezes que vocês se recusaram a fazê-lo a estas pessoas menos destacadas, também se recusaram a fazê-lo por mim’. Eles irão para o castigo eterno, mas os que fizeram o que Deus deseja irão para a vida eterna”.
(Mattityahu 25.31 a 46 BJC)

            Repare que Yeshua relaciona o dar de comer, de beber, de vestir, o visitar com realizar o que Deus deseja, e perceba que são atitudes daqueles que possuem o fruto do Espírito. É interessante notar também que tais obras foram realizadas de modo natural, não forçado ou religioso, pois foram feitas às pessoas menos destacadas, àqueles que ninguém vai notar. Inclusive o grupo daqueles que fizeram a vontade do Pai, não sabia que estava fazendo-a.
            Deste modo enquanto muitos se esforçam para fazer uma obra e serem aceitos por Deus, criando uma religião de ajuda ao próximo, e até mesmo possuem uma coleção de boas ações como se fossem medalhas de escoteiros, outros procuram ficar em evidência ajudando aqueles que atraem atenção. Mas para Deus nada disso importa.
            A vontade do Senhor é que sejamos seres humanos genuínos, que movidos pelo fruto do Espírito promovamos o bem a todos que cruzarem nosso caminho. A falta de ação indica que há algo errado em nosso interior, e é esta mudança que precisamos buscar.

            Qual é a sua preocupação maior: seu ministério ou as vidas? Suas realizações ou a verdadeira obra de Deus? Quanto você está disposto a deixar Deus fazer através de você? Estaria disposto a largar tudo?

sábado, 29 de novembro de 2014

Centralizando Deus em seu lar

“Pois ADONAI, seu Deus, anda pelo seu acampamento para resgatá-los da mão dos seus inimigos. Portanto, seu acampamento deve ser um lugar sagrado.”
(D’varim [Deuteronômio] 23.15(14) BJC [Bíblia Judaica Completa])

            Falar sobre família é um dos meus assuntos favoritos e, longe de pensar que domino todo assunto, a cada vez que preciso falar sobre este tema reflito sobre a maneira que tenho encarado e principalmente agido em minha casa.
            É inegável que foi Deus quem criou a família, afinal ao narrar a criação de todas as coisas, no primeiro capítulo de Gênesis, a Bíblia relata: “Portanto, Deus criou a humanidade à sua imagem; à imagem de Deus ele os criou: criou-os macho e fêmea.” (B’reshit [Gênesis] 1.27 BJC). O Criador não fez apenas o homem e apenas em um segundo momento, como se mudasse de planos, decidiu fazer a mulher. Ele sempre intencionou criar o casal, haja visto que fez o homem com um órgão reprodutor. Deste modo, o nosso Deus está sempre atento para a nossa família, e está sempre presente.
            No versículo que lemos no início desta mensagem, em meio a inúmeras instruções em relação à higiene que deveria existir dentro do acampamento dos filhos de Israel no deserto, após o Êxodo, o Senhor fala que andava pelo mesmo e, portanto, os israelitas deveriam encara-lo como um lugar sagrado, ou seja, inviolável, respeitável.
            Nosso acampamento é a nossa casa, onde habitamos com nossa família, e, da mesma forma que fazia em meio ao povo de Israel no deserto, o Senhor caminha em nosso lar, a questão é: o que tem sido o alvo de nossa atenção?


Este talvez tem sido o maior desafio para nossa vida em família na presença de Deus: desligar-nos de tudo aquilo que é supérfluo para nos conectar naquilo que realmente é importante. Embora a febre de nossos tempos, e inclusive o tema do vídeo, apontem o alvo desnecessário de nossas atenções como os celulares e tablets, não são apenas eles quem têm roubado nosso tempo e energia daquilo que realmente é digno deles.
            Temos dedicado tanto atenção ao nosso emprego, trazendo para casa as inquietações e preocupações de nosso ambiente profissional que mal temos tempo para nossos filhos. Definimos como a fonte do nosso relaxamento um tempo a frente de uma televisão vendo um filme, seriado ou a um telejornal que nem percebemos como é relaxante ouvir nossos filhos gargalharem, e, principalmente, participar desta alegria. Colocamos como prioridades em nossas vidas o nosso ministério, nossos contatos do facebook ou do whatsapp, nossos jogos eletrônicos, e nos ocupamos com tanta coisa, mas por dentro estamos vazios, pois no fundo nada disso realmente importa. Aquilo que importa tem ficado de lado, nosso Deus e nossa família, e são eles quem darão sentido a nós mesmos, afinal quem nasceu para estar sozinho? Já nascemos ligados a alguém.



            Deste modo a primeira reflexão que faço e incentivo você a fazer juntamente comigo é: qual tem sido a venda sobre os seus olhos que o tem impedido de ver aqueles que realmente importam?
            Esta cegueira acaba se intensificando quando falamos da presença de Deus em nosso lar, afinal vivemos em um mundo dualista, que separa o espiritual do material, e acabamos influenciados a viver hora em um universo secular, hora em um universo eclesiástico. “A secularização é um fenômeno, que nasce com a modernidade, que é a afirmação da racionalidade humana e Deus está fora da equação, Deus não faz parte do que vai explicar o mundo, a realidade a vida. Deus não é considerado. Mundo secular é um mundo em que Deus não é necessário, ou não é evocado ou invocado para explicar.” (Ed Rene Kivitz).
Muitos consideram esta definição algo totalmente contrário àquilo que vivem, pois, “como pode alguém deixar Deus de fora de sua vida?”, pensam.  Mas lembrar de Deus apenas uma vez por semana ao visitarmos uma igreja, não significa trazer Deus para dentro de nossas vidas.
Agora, se em nosso dia a dia não somos capazes de enxergar nossa própria família em meio a tantos problemas e afazeres, o que dirá de enxergar a Deus? Sabemos que Ele está sempre presente em nossas vidas (Mt 28.20), mas não temos dado nenhuma real atenção, fora nos minutos antes de comer uma refeição ou dormir quando elevamos nossos pensamentos em oração a Deus.
            Temos vivido uma vida de religiosidade, esperando conquistar o favor do Senhor mediante aquilo que fazemos, assim quando nos perguntam: “Como atrair a presença de Deus para nossa casa?” nossa resposta normalmente se relaciona a um jejum, uma campanha de oração, a entrega de uma oferta especial, quando na verdade nossa resposta deveria ser: “Ele já está presente e deseja se relacionar comigo.”. Assim a vida de quem deseja a presença de Deus em seu lar, antes de ser uma vida de entrega e sacrifício, é uma vida de busca por um real relacionamento com Deus, e este começa com um relacionamento com o outro.

“Se afirmarmos que temos comunhão com ele [Deus], mas andamos nas trevas, mentimos e não vivemos na verdade. Se, porém, estivermos andando na luz, como ele está na luz, temos, então, comunhão uns com os outros, e o sangue de seu Filho Yeshua [Jesus] nos purifica de todo pecado.”
(1 Yochanan [1 João] 1.6,7 BJC)

            Assim nosso relacionamento com Deus é o reflexo de nosso relacionamento com aqueles que estão ao nosso lado, começando com nossa família. Um relacionamento de qualidade com os nossos, atrairá a presença de Deus, afinal Yeshua disse que “sempre que dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou com eles” (Mattityahu [Mateus] 18.20 BJC).
            Relacionar-nos com Deus e com o nosso próximo significa termos uma ligação com eles, que envolve convivência, comunicação e atitudes.
            Não existe relacionamento quando não convivemos. Assim precisamos deixar de lado nossas ocupações e preocupações para passarmos um tempo de qualidade com nossa família. Isto significa não simplesmente estar por um tempo em um mesmo ambiente, mas, além disto, manter uma comunicação. Comunicar vem do latim “communicare” que significa partilhar, participar algo, tornar comum. Não é simplesmente dizer uma informação qualquer, mas abrir o seu coração, olho no olho, e tornar o outro participante de sua vida.
            A vida familiar só existe com um relacionamento entre todos, com um participando da vida do outro não apenas em palavras, mas em suas atitudes, e é nestas últimas que o amor precisa transparecer. Para isto todos os envolvidos precisam cultivar laços de confiança, respeito e harmonia. O verbo cultivar não foi usado por acaso, pois o processo é realmente igual ao de o cultivo de uma árvore frutífera: precisamos plantá-la, zelar pelo seu crescimento regando e adubando a terra, para depois de tudo desfrutar de seus frutos. E eu preciso fazer isto em minha família, independente de qual tem sido a postura dos outros, afinal conforme disse Antoine de Saint-Exupéry: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.
            Após criar e cuidar diariamente deste relacionamento, podemos convidar nosso Deus a fazer parte dele. É evidente que Deus já estará presente, mas o convite e para que nós mesmos nos atentemos para esta santa presença. Podemos seguir a orientação de Sha’ul [Paulo]: “continuem cheios do Espírito – cantam salmos, hinos e canções espirituais uns para os outros; cantem ao Senhor e lhe façam música no coração; deem sempre graças a Deus, o Pai, por todas as coisas em nome de nosso Senhor Yeshua, o Messias.” (Efésios 5.18-20 BJC).
            Deste modo eu passo a me relacionar com o outro sabendo que Deus está no meio deste relacionamento, não fica apenas no intelecto, mas minhas ações demonstram este entendimento. A partir daí eu me reúno com minha família para orar, para cultuar a Deus, compartilhar a Palavra. Quantas vezes temos feito isto nas últimas semanas?
            O Tabernáculo construído por Mosheh [Moisés] no deserto é uma figura disto. Esta tenda representava a presença de Deus habitando em meio às famílias dos israelitas que acampavam ao seu redor.



            Todo o acampamento enxergava que Deus estava entronizado em seu meio. Esta deve ser a nossa visão quando estamos em nosso lar, junto com nossa família: Deus está conosco. Este conhecimento precisa gerar em nós um comportamento. Nossa vida não é, e não deve ser, independente do Senhor.
            Precisamos dessecularizar as nossas vidas, trazendo de volta a participação do Senhor em todos os seus âmbitos, começando pela nossa casa.

            Assim, como posso trazer a presença de Deus para minha família? Tratando-a como morada de Deus entre os meus.

domingo, 14 de setembro de 2014

A missão de todo seguidor de Yeshua [Jesus]

“Yeshua [Jesus] enviou os doze com as seguintes instruções: ‘Não entrem no território dos goyim [não judeus], nem entre em qualquer cidade de Shomron [Samaria]; em vez disso, vão às ovelhas perdidas da casa de Yisra’el [Israel]. Por onde forem, proclamem esta mensagem: ‘O Reino do Céu está próximo’, curem os enfermos, ressuscitem os mortos, purifiquem afligidos por tzara’at [lepra], expulsem os demônios. Vocês receberam de graça, portanto deem sem pedir pagamento. Não levem dinheiro nos cintos, nem ouro extra, nem sandálias, nem bordão – deve-se dar ao trabalhador o que ele necessitar.”
(Mattityahu [Mateus] 10.5 a 10 BJC [Bíblia Judaica Completa])

            Yeshua [Jesus] pronunciou estas palavras aos seus doze talmidim [discípulos] ao enviá-los para realizar uma missão. Esta missão continua válida para todos os seguidores do Messias, afinal, assim como Kefa [Pedro] reconheceu na casa de Cornélio, sabemos que “Deus é imparcial” (Atos 10.34 BJC). Yeshua não faz distinção de pessoas, escolhendo umas para promover o Reino e outras para somente desfrutar deste Reino. Todos os seguidores do Messias têm o privilégio de desfrutar e o dever de promover o Reino do Céu. Promover este reino é “nada mais do que colocar todas as coisas e, acima de tudo, todos os povos da terra sob o domínio e liderança de Jesus Cristo” (SNYDER, Howard A. A comunidade do Rei. São Paulo: ABU Editora, 2004, p. 12). Precisamos verdadeiramente entender que o chamado de Yeshua é para nós mesmos, e que este chamado precisa ser cumprido em nossos dias.
            É interessante notar que neste primeiro momento os talmidim deveriam se preocupar apenas com as ovelhas de Yisra’el [Israel]. Isto mostra que a primeira missão que recebemos do Senhor deve ser cumprida em nossa família. É mais fácil se preocupar com aqueles que estão distantes, com quem não convivemos e desta maneira não conhecermos as falhas de caráter, as hipocrisias do dia a dia, que nos mostram que também temos nossas próprias falhas de caráter e hipocrisias do dia a dia. Porém nosso ministério começa dentro de nossos próprios lares. Deus pode tranquilamente levantar alguém para ser pastor em seu lugar, para ser um diácono em seu lugar, um evangelista em seu lugar. Agora, como é que Deus irá levantar um pai em seu lugar? Um marido em seu lugar?
Em uma pesquisa feita com 1050 pastores norte-americanos revelou que 38% são divorciados ou estão em processo de divórcio (Caiafarsa. Raio-X dos Pastores Protestantes. Disponível em <http://caiafarsa.wordpress.com/raio-x-dos-pastores-protestantes/>, Acesso em 14/09/2014). É algo a se pensar. Temos dedicado tanta energia à nossa família quanto aos demais? Isso não quer dizer que nossa família é mais importante que as demais pessoas, mas que a obra de Deus precisa começar dentro de nossa casa. Afinal, conforme disse Sha’ul [Paulo] a Timóteo, “se alguém não provê às necessidades dos próprios parentes, e especialmente às da própria família, desonrou a fé e é pior que o incrédulo” (1 Timóteo 5.8 BJC).
Embora a missão do Senhor para nós comece entre os nossos, ela não deve terminar aí. O Messias Yeshua ordena: “Portanto, vão e façam talmidim entre as pessoas de todas as nações, imergindo-as na realidade do Pai, do Filho e do Ruach HaKodesh, ensinando-as a obedecer a tudo o que lhes ordenei.” (Mattityahu 28.19 e 20 BJC).
O verbo ir (vão) na passagem está no particípio passivo aoristo que representa uma ação simples, sem indicar o momento da ação. Ou seja, a instrução é que em todo o tempo e por onde andarmos estaremos fazendo talmidim. E deste modo seremos “testemunhas em Yerushalayim [Jerusalém], em toda região de Y’hudah [Judá] e Shomron, na verdade até os confins da terra!” (Atos 1.8 BJC). Vejo Yerushalayim representando nossa família, Y’hudah aqueles que estão próximos de nós que nos damos bem e Shomron aqueles que estão próximos de nós e que não nos damos bem. Assim, começamos nosso chamado em nossos próprios lares, continuamos entre nossa família e expandimos para alcançar a todos aqueles que estão ao nosso lado, nossos próximos, e desta maneira testemunharemos as boas-novas sobre Yeshua “até os confins da terra”.
Depois de saber entre quem iremos fazer a obra do Senhor, Yeshua continua sua instrução dizendo que obra devemos realizar. A primeira delas é proclamar a mensagem: “O Reino do Céu está próximo”. A proclamação da mensagem do Reino é o ensinamento que todas as coisas estão sujeitas ao Senhor. É mostrar principalmente através de nossas atitudes que o Senhor reina sobre tudo e que o Seu amor é derramado sobre a vida de todo ser humano. E como é que isto deve ser feito? O próprio Yeshua nos ensina: curem os enfermos, ressuscitem os mortos, purifiquem afligidos por tzara’at e expulsem demônios. Tais ensinamentos precisam ser compreendidos tanto literal quanto figuradamente.
Curar os enfermos representa tanto realmente ajudar aquele que está passando por um momento de enfermidade quanto auxiliar aquele que está fraco, visto que a palavra usada por Yeshua significa estar debilitado em qualquer sentido – adoentado, impotente, doente, fragilizado. Isto implica em visitar aquele que está enfermo, apoiar aquele que está fragilizado, ser a cura na vida dos afligidos. Sua palavra pode curar, seus abraços consolar, seus gestos aliviar a dor. Nós somos instrumentos de cura para os doentes de corpo, alma e espírito que estão ao nosso lado.
Ressuscitar os mortos não implica somente em trazer os que morreram de volta a vida. Vai além disto, nos indicando que somos instrumentos para reavivar sonhos mortos pelas circunstâncias adversas da vida, trazer vida, trazer animo, para os que já desistiram de viver.
Purificar os afligidos por tzara’at mostra a preocupação com aqueles que foram marginalizados em nossa sociedade. Os leprosos nos tempos de Yeshua eram colocados fora de suas cidades e quando alguém se aproximava, eram obrigados a gritar: “Somos leprosos”, para afastarem todos aqueles que se aproximarem. Todo aquele que tocava em um leproso era considerado ritualmente impuro. Para purificar os afligidos por tzara’at precisamos deixar de lado nossos preconceitos. Pegar toda a veste de santidade que colocamos sobre nós mesmos, nos considerando melhores, mais aceitáveis diante de Deus, mais justos, e deixar tudo isto de lado, para alcançar aqueles por quem nosso Messias Yeshua derramou seu precioso sangue.
A missão que o Senhor confiou a cada um de nós precisa ser cumprida verdadeiramente se importando com pessoas.
Um terceiro aspecto muito importante nesta missão está nas palavras de Yeshua que declaram: “Vocês receberam de graça, portanto deem sem pedir pagamento.”. Muitos tentam vender as bênçãos do Senhor: cobram por curas, pedem ofertas e mais ofertas em troca da prosperidade, vi há alguns dias um pastor pedindo a seus ouvintes que dessem o valor de seu aluguel para que Deus lhes concedesse a casa própria. Não consigo ver nenhuma dessas pessoas como verdadeiros seguidores de Yeshua, e, mesmo soando extremamente forte, não consigo classifica-los de outro modo além de ladrões. A mensagem do Reino, a cura para as doenças, a ressurreição dos mortos, a purificação das tzara’at devem ser de graça, assim como foi gratuito tudo aquilo que recebemos do Pai.
Entregar de graça implica não somente a questão de não vender, mas também de não esperar nada em troca. Não esperar ser ouvido, não esperar um agradecimento, não cobrar que a pessoa passe a seguir a Yeshua apenas por seu gesto. Precisamos confiar que a obra é do Senhor e que somos apenas instrumentos em Suas poderosas mãos. Assim, Ele irá nos usar da maneira que desejar e continuará a agir na vida daqueles que estão ao nosso lado de acordo com a Sua sabedoria.
            O quarto e último aspecto que desejo abordar no chamado que recebemos de Yeshua é: “Não levem dinheiro nos cintos, nem ouro extra, nem sandálias, nem bordão – deve-se dar ao trabalhador o que ele necessitar.”. Vejo isto como um alerta a não confiarmos em nossas próprias forças, ou em nossa capacidade. Mas acima disto buscar a capacitação do Senhor, que distribui a cada um de nós dons espirituais para cumprir com excelência o chamado.

“Existem diferentes tipos de dons, mas o mesmo Espírito os concede. Há também diversas formas de servir, mas o mesmo Senhor é servido. Existem vários modos de atuar, mas o mesmo Deus os faz ativos em todos. Além disso, a cada pessoa é concedida uma manifestação particular do Espírito para o bem comum.”
“Não são todos emissários, são? Nem todos são profetas, mestres, realizadores de milagres, são? Nem todos têm dons de curar, nem todos falam em línguas, nem todos as interpretam, não é mesmo? Procurem com empenho os melhores dons. No entanto, eu lhes mostrarei agora o melhor caminho. Posso falar as línguas dos homens, até dos anjos, mas se me faltar amor, tornei-me apenas metal que soa ou címbalo que retine”.
(1 Coríntios 12.4 a 7; 12.29 a 13.1 BJC).

            Só seremos capazes de cumprir o chamado de Yeshua a cada um de nós se buscarmos a capacitação do Senhor que vem através dos dons espirituais. Cada um desses dons é a manifestação da graça do Senhor sobre as nossas vidas. E o principal dom, de acordo com a Palavra, é o amor. Nosso principal chamado será cumprido através do amor de Deus em nossos corações.

            Assim, todos temos uma missão que deve ser cumprida em nossa família e entre aqueles que estão perto de nós. Tal missão consiste na pregação do Evangelho e no cuidar das pessoas, tudo através dos dons espirituais e do amor, que precisa reger toda a obra.